
Fim de mais uma aula. O professor havia se demorado mais que o de costume e eu já estava cheio. Foi quando Manuela passou ao meu lado com seu namorado. Me perguntei naquele instante o que diabos ela viu naquele sujeito, ela que sempre dizia que a inteligência era afrodisíaca. Acho que era a estabilidade e a certeza vã de um amor. Bonito pra ela.
Como pude ser tão imbecil a ponto de deixa-la escapar por entre meus dedos. Na verdade nosso relacionamento não teria dado certo por que eramos informação demais. Nosso amor cheiraria a bolor de um blazer bege velho que ela havia comprado num brecho. Ela não me aguentaria mais e me mandaria embora. Será que ela não sabia que me mandar embora em alguns dois meses só me faria mais louco por ela? Aposto como ela daria uma de durona e diria que nunca me amou.
O fato é que agora ela desfilava com aquele cara que carregava no peito um estandarte rubro negro. Não sei se o pior era ela estar com ele ou eu estar sem ela. Bem, estar sem ela já era ruim mas aquele cara definitivamente havia sido a gota d’água. Me deu vontade de perguntar o por quê, mas o momento ideal já havia passado assim como ela.
Me devorei por dentro, o gosto do chocolate meio amargo que ela tanto gostava me passou pela boca. Era amargo e doce assim como nós, era estranho. Foi quando caí na real que o problema era eu. Eu que não gostava de futebol, corrida de carro, do legião urbana, sentimentalidades tolas, dias dos namorados, viagens pra praias, datas comemorativas, moralidade e a humanidade. Eu que me achava tão inteligente, acima dos conceitos, acima do bem e do mal.
Eu já deveria imaginar que ela, como mulher não toleraria isso. Mesmo sendo ela tão inteligente e pensasse como eu ou até melhor. Deveria ter fingido mais. Mas amar e fingir é intolerável. Era um fato que eu jamais deveria ter me esquecido, as mulheres são programadas pra fundar famílias. Elas querem a certeza de um amor tranquilo, isso era coisa que eu jamais poderia oferecer.
Nosso relacionamento seria curto e intenso. Assomos de conversas ferinas, discussões intermináveis, pontos de vistas, teses e antíteses. Jamais constituiríamos sínteses, e sem síntese não há união nem crianças brincando no parquinho enquanto os pais trabalham arduamente para dar-lhes uma boa vida.
O idiota que ela estava seria melhor pai do que eu jamais poderia ser. Um paizão que leva as crianças pra ver o time do coração jogar, que levaria a esposa e os filhos pra a praia, que chegaria cansado de um longo plantão e mentiria o quão lindo estava o cabelo dela ou como foi bom aquele sexo de rotina.
Que ironia, ela achava que queria um filosofo como esposo mas na verdade ela queria o tempo todo que eu fosse um animal descerebrado. Na verdade o máximo que eu poderia ser era um amante, um desses de filme de Woody Allen em que ela viveria um affair em Paris e tudo estaria acabado em uma semana e logo depois ela voltaria para New York e para os braços do seu “amor”.
O problema da ironia é justamente esse quando as pessoas não entendem, quem fica parecendo um idiota é você. É como estou me sentido agora um grandessíssimo idiota. A vida toda aprendendo dialética, superando meus limites, ampliando meus conceitos, abrindo minha mente para que um dia eu possa mostra o quão esta inteligência é afrodisíaca aí chegam as mulheres que dizem ter tesão pelo sarcasmo bem embasado e me colocam a tira colo uns chimpanzés como o amor da vida delas. Sinceramente me poupe.
PS. Ela deve achar que o amor é como no filme o fabuloso destino de Amélie Poulain. Aposto que a neurótica da Amélie não durou 2 anos com o namoradinho dela. Bem, a vida é dura baby.
As mulheres se iludem, estou cada dia mais certo disso.
PS2. As mulheres tem uma certa ilusão de segurança e ainda arranjam homens que as iludem mais ainda. Usando as velhas promessas de estabilidade.